Auto retrato -  Sérgio Lima

Sérgio Lima

Nascido na cidade de Pirassununga, SP, em 1939 é poeta, ensaísta e artista plástico. Militante  da subversão e da afirmação do surrealismo, participou do Grupo Surrealista de Paris a convite de André Breton, permanecendo na capital francesa nos anos de 1961 a 1962.

Fundador do Grupo Surrealista de São Paulo em sua primeira aparição (1965-1969), e da segunda (1991-1999),  a partir de 2005  passa a reunir-se mensalmente com integrantes do extinto grupo deCollage e  com ativistas independentes do surrealismo,  vindo então a formar o que hoje consolida-se como o Grupo Surrealista de São Paulo em sua terceira aparição.

Foi editor da Revista surrealista Phala, em 1967 e o é da Quimera que Passa, publicação do atual Grupo Surrealista de São Paulo.

Realizou exposições individuais em São Paulo, 1971, 1976 e 1978;

Buenos Aires, 1986;

La Laguna/Tenerife, 1994

Famalicão, no Centro de Estudos do Surrealismo, 2007.

É docente universitário e vive em São Paulo.

Bibliografia

Amore (Massao Ohno – 1963)

O Corpo Significa (1976)

A Festa Deitada (1976)

Collage (Massao Ohno – 1984)

A Alta Licenciosidade (1985)

Aluvião Rei (&etc – 1992)

A Aventura Surrealista (Vozes – 1995)

Roberto Piva

São Paulo, 25 de setembro de 1937

Publicado primeiramente na Antologia dos Novíssimos (São Paulo:Massao Ohno,1961),  logo se destacaria como uma das vozes mais originais da poesia brasileira com a publicação de Paranóia (Massao Ohno, 1963). Adepto do surrealismo e influenciado pela geração beat, escreve a cidade de São Paulo com um olhar altamente erotizado, cosmopolita, crítico, avalizado por sua experiência urbana pessoal.

Bibliografia

Plaquete

Ode a Fernando Pessoa, 1961

Coletâneas

Antologia dos Novíssimos

Massao Ohno editor, 1961

26 Poetas Hoje

Editorial Labor, 1976

Livros individuais

Paranóia, 1963

Piazzas, 1964

Abra os olhos e diga ah!, 1975

Coxas, 1979

20 Poemas com Brócoli, 1981

Antologia Poética, 1985

Ciclones, 1997

Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1, 2005

Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2, 2006

Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3, 2008

Paranóia ou Poeta em São Paulo

Por Cláudio Willer

A boa acolhida da reedição de Paranóia, livro de poemas de Roberto Piva e fotos de Wesley Duque Lee (Instituto Moreira Salles, 2000, originariamente publicado por Massao Ohno em 1963), fez com que muita gente reconhecesse o que havia deixado de ver naquela época, ou em algum momento das últimas décadas: que aí havia algo de novo, uma voz legitimamente original na poesia brasileira. Contribuíram para o silêncio de 1963 e anos seguintes blasfêmias como o lautreamontiano o universo é cuspido pelo cu sangrento de um Deus/cadela, o sarcástico há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios e isso, como se não bastasse, enquanto os cardeais nos saturam de conselhos bem-aventurados/ e a Virgem lava sua bunda imaculada na pia batismal.

Trechos de uma poesia que não apenas proclamava a rebelião, a não-aceitação dos valores da sociedade, mas ia além, destruindo simbolicamente o mundo, sem deixar pedra sobre pedra, em um Apocalipse onde arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos.

Mas o interesse do relançamento de Paranóia não se reduz à recuperação das ousadias de um livro meio perdido no tempo (embora, qual fantasma, trechos reaparecessem inesperadamente em antologias como 26 Poetas Hoje, de 1976), e à conseqüente retificação de omissões e julgamentos equivocados. Piva é um poeta dos anos 60 e, igualmente, um poeta de hoje, que não parou de produzir e de se renovar. Teve a capacidade de, logo em seguida a Paranóia, sair-se com um livro bem diferente, Piazzas (Massao Ohno, 1964, reedição pela Kairós, 1980), embora mantendo características fundamentais, a começar pela livre criação de imagens. A observar como, ao longo de seus oito livros já publicados, de Paranóia até Ciclones (Nanquim, 1997), Piva oscila da expansão à contração, da hipérbole à elipse, da escrita torrencial à sintética. Mais próximos ao pólo da síntese estão 20 poemas com Brócoli (Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1981) e Ciclones. No pólo da expansão, Quizumba (Global, 1983) e este inaugural Paranóia, com seu verso longo, quase poesia em prosa.

A história da gênese de Paranóia confere interesse adicional ao livro. Até então, Piva havia publicado alguns poemas na Antologia dos Novíssimos (Massao Ohno, 1961) e uma Ode a Fernando Pessoa lançada como panfleto, folha solta, no ano seguinte (também por Massao Ohno). Paranóia eqüivale a uma explosão, como se as comportas de sua imaginação se abrissem para um jorro de imagens compondo um discurso radicalmente na primeira pessoa, um “eu” não apenas lírico, porém enfurecido: eu sou uma solidão nua amarrada a um poste, passando a enxergar, e a enxergar-se como ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas, enquanto colégios e carros fúnebres estão desertos/ pelas calçadas crescem longos delírios/ punhados de esqueletos são atirados no lixo.

Tudo o que Paranóia possa ter de alucinado, registro de visões que seu autor insinua haverem sido induzidas por drogas e fortes bebedeiras, ganha vigor pela simultânea afirmação do seu realismo, de que as imagens não representam apenas um mundo onírico, porém concreto, que está aí. Isso é acentuado pelo uso dos topônimos, os nomes das ruas e praças por onde Piva efetivamente circulava – Praça da República, Largo do Arouche, Avenida São Luís, Rua das Palmeiras, Parque Ibirapuera. E pelas fotografias de Wesley Duque Lee que ilustram o livro, resultado de andanças do artista plástico por São Paulo na companhia do poeta. Texto e ilustrações compõem a mesma unidade, são inseparáveis, conforme fica evidente nesta reedição de boa qualidade gráfica. Assim, ao lado de um verso como Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas acende velas no meu crânio, uma foto noturna da mesma rua, bem iluminada; acompanhando o revólver imparcialíssimo vigiado pelas Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas, a vitrina de uma loja de armas; junto aos cus de granito destruídos com estardalhaço nos subúrbios demoníacos, as nádegas de pedra de uma estátua; com o poema sobre o Parque Ibirapuera, fotos desse belo lugar. Em outras passagens, a fotografia não reproduz ou traduz o texto, porém sugere correspondências e afinidades, inclusive através de detalhes, partes de algum todo difícil de identificar, e de formas ambíguas, como a foto da capa, imagem tirada de um daqueles espelhos deformantes de parque de diversões. A evidente associação da poesia de Piva ao Surrealismo é assim reforçada: ao longo das 150 páginas de Paranóia ele não está falando nem de um mundo puramente pessoal, do sujeito, nem de um mundo objetivo, dentro do paradigma realista, porém de algo que é subjetivo e objetivo, concreto e abstrato, real e irreal, indo além dessas categorias, propondo sua superação.

As imagens de Paranóia não surgiram do nada, e não são apenas um registro de experiências do autor. Têm origens literárias, admitidas e declaradas através de menções e homenagens a Jorge de Lima (o Panfletário do Caos do título de um dos poemas), Murilo Mendes, Lautréamont, García Lorca e Mário de Andrade, entre outros. Além disso, a releitura evidencia o caráter quase epifânico que teve para Piva a leitura do Allen Ginsberg de Uivo, América e Um supermercado na Califórnia, poemas dos quais se pode identificar paráfrases em Paranóia. Em várias passagens, Piva consegue unir o modo confessional que caracteriza a escrita de Ginsberg e a imagética surrealista. Escreveu como se fosse um beat das megalópoles, porém intoxicado, em uma dosagem ainda maior do que a dos próprios poetas rebeldes norte-americanos, pelo vanguardismo europeu em seus modos mais radicais. Sem dúvida, assim como o foi Allen Ginsberg, é um continuador declarado do Poeta em Nova York de García Lorca; em Paranóia, escreveu o seu Poeta em São Paulo.

Pode-se associar Piva a Mário de Andrade pela homenagem no poema No Parque Ibirapuera, onde escuta um potente batuque fermentado na rua Lopes Chaves. E, em uma relação de efetiva continuidade, pela temática urbana, com todos os topônimos, os Trianon, Anhangabaú e Cambuci, já nomeados em Paulicéia Desvairada. Contudo, Mário de Andrade não ofereceu muito mais que descrições, flashes de lugares e cenas da cidade. Esforçou-se para enxergar, através de seu desvairismo, versão local do simultaneísmo de Apollinaire, a metrópole futurista no lugar que denominou de galicismo a berrar nos desertos da América, no burgo provinciano que ainda era a São Paulo do começo do século 20, e que precisaria de mais algumas décadas para desvairar de vez, para valer, e por isso merecer um registro como o de Paranóia.

O tempo passado entre as duas publicações, de Paulicéia Desvairada e Paranóia, é de 41 anos. Quase a mesma coisa, apenas um pouco mais do que os 37 anos que nos separam, agora, da primeira edição do livro de Piva. Lira Paulistana, por sua vez, publicado postumamente, só em 1947, chega a ser quase contemporâneo de Paranóia. Ao mesmo tempo, são poemas de outra era, sobre outra cidade, em outra linguagem, enquanto a poesia de Piva vai, aos poucos, sendo recuperada e percebida como nossa contemporânea.

http://www.triplov.com/surreal/piva_claudio.html

https://i0.wp.com/www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/Claudio%20Willer_1253570212.jpg

CLÁUDIO WILLER

Poeta, ensaísta e tradutor. É formado em sociologia e psicologia. Foi professor do Departamento de Psilcologia da Universidade de São Paulo.

Ativo palestrante, professor, crítico e ensaísta, colaborou nos seguintes suplementos e publicações culturais:

Jornal da Tarde (SP)

Jornal do Brasil(RJ)

Revista Isto É

Jornal Leia

Folha de São Paulo

Revista Cult

Correio Braziliense (DF), entre outros.

Foi ativo colaborador da imprensa alternativa brasileira:

Versus

Revista Singular e Plural e outros.

Foi Presidente da União Brasileira de Escritores em dois mandatos (1988-92), secretário geral em outros dois (1982-86), e presidente do Conselho da entidade.

Bibliografia

Anotações Para Um Apocalipse

Massao Ohno Editor, 1964

Dias Circulares

Massao Ohno Editor, 1976

Jardins da Provocação

Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1981,

Volta

Iluminuras, 1996

Estranhas Experiências e Outros Poemas

Ed Lamparina, 2004

Traduções

Os Cantos de Maldoror

(Tradução)

Lautréamont

1ª edição Editora Vertente, 1970

2ª edição Max Limonad, 1986

tradução e prefácio

Escritos de Antonin Artaud

L&PM Editores, 1983

(seleção, tradução, prefácio e notas)

Uivo, Kaddish e outros poemas

Allen Ginsberg

L&PM Editores, 1984

seleção, tradução, prefácio e notas

Crônicas da Comuna

Coletânea sobre a Comuna de Paris

Textos de Victor Hugo, Flaubert,

Jules Vallés, Verlaine, Zola e outros

Editora Ensaio, 1992

( tradução)

Lautréamont – Obra Completa

Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas

Edição prefaciada e comentada

Iluminuras, 1997

Antologias

Alma Beat

L&PM Editores, 1985

Carne Viva

Coletânea de poemas eróticos

Org. Olga Savary

Achiamé, 1984

Folhetim – Poemas Traduzidos

(com uma tradução de Octavio Paz)

Org. Nelson Ascher e Matinas Suzuki

Ed. Folha de São Paulo, 1987

Artes e Ofícios da Poesia,

Org. Augusto Massi

Ed. Artes e Ofícios

Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1991

Sincretismo

A Poesia da Geração 60

Org. Pedro Lyra

Topbooks, 1995

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Uma resposta to “Autores”

  1. ana luiza fonseca said

    Massao publicou e escreveu prefácio para meu livro Luas de Papel.( 2005)
    Todavia,não o encontro nas listagens de seu acervo.
    Lamento a perda do Editor. Além do mais e principalmente, grande amigo.
    Ana Luiza

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