Perguntem a toda uma geração de poetas que já foram jovens quem é Massao Ohno e eles dirão: “Era Deus, no tempo em que éramos pe­quenos”. É uma licença poética exaltada e as coisas não são bem as­sim. O paulistano que editou mais de 800 livros tem mais de guru-zen do que de di­vindade. E não é popular. “É um samurai da sombra”, diz o poeta Antonio Fernando De Franceschi. “Trabalhador do invisível, luminoso nissei, esbelto que, nas horas vagas, seduzia as poetas da nossa juven­tude, bebedor de uísque e filósofo oriental”, escreve Renata Pallottini. Para Carlos Vogt, “É talvez o maior editor desorganizado que melhor contribuiu para orga­nizar a poesia brasileira jovem durante pelo menos três décadas”. José Mindlin assina e dá fé, com sua experiência de empresário:

“Ele terá sido um dos poucos que, ao decidir uma edição, não levava em conta se ela seria vendável ou não. (…) Sua obra editorial, no entanto, permanecerá”.

Filho de pais japoneses, dentista formado numa família de nove irmãos, todos en­genheiros, gostava de filosofia e letras, mas foi impe­dido de cursá-Ias pelos pais que não queriam vê-Io em uma carreira tão imaterial. “Me submeti à família”, conformou-se. Mas por pouco tempo, então tornou-se editor, com um comentário fatalista: “Minha primeira gráfica foi também a última”. Editava autores desconhecidos, na grande maioria poetas, e seu nome, para muitos deles, transformou-se numa tábua de salvação. “Minha última esperança é o Massao”, cos­tumavam dizer. E o poeta Cláudio Willer diz mesmo, até hoje: “Não sei como teria saído o meu livro Anotações para o apocalipse, em 1964, se não fosse a iniciativa dele.”

São Paulo, no começo dos anos 60, era uma cidade muito menor, onde todo mundo se conhecia. E entre os conhecidos de Massao es­tavam artistas como Manabu Mabe, Ciro DeI Nero e Tide Hellmeister, logo incorporados aos projetos gráficos dos livros.

O poeta e roman­cista Álvaro Alves de Faria analisa: “Falar de Massao só será possível na linguagem da poesia. É um poeta dos livros, um monge que dedi­cou sua vida a isto. Publicou a Antologia dos novíssimos, em 1960, na velha prensa da rua Vergueiro. Ele está aí nesse meio como um Dom Quixote a combater a miséria de um tempo feito quase só de angús­tias”. Havia, naturalmente, a questão política. Massao militou, “mais no plano das idéias do que no prático”, na AP (Ação Popular), foi mui­to vigiado mas não chegou a ser preso.

Casou cin­co vezes, teve quatro filhos e sete netos. Sua vida daria um ou dois romances, que ele não escreverá.

Só ganhou “uma certa universalidade”, como diz, além das fronteiras paulistanas, quando se mudou para o Rio. Ficou quatro anos e tra­balhou com o editor Ênio Silveira, da então poderosa Civilização Bra­sileira, com quem teve o que aprender. “Foi interessante”, ele diz, no seu jeito de falar pausado e sempre econômico. ‘Ele tinha a máquina da distribuição’ , que era o meu ponto fraco, e meus livros começa­ram a chegar às livrarias”.

Na volta a São Paulo constatou que precisava se modernizar tec­nologicamente – ou se tornaria obsoleto. A modernização exigia um investimento muito grande. Trabalhou então em produtos mais em conta, como o cinema de baixo custo, e ajudou na finalização de fil­mes como Viagem ao fim do mundo (1967), de Fernando Coni Cam­pos, e o celebrado cult de Rogério Sganzerla O bandido da luz ver­melha (1968). Mas não deixou a edição de livros. E sua editada mais famosa, no restrito círculo da poesia, tornou-se Hilda Hilst, autora de peças e livros como O verdugo (1969) e Can­tares de perda e predileção (1984).

Se estava à procura de um edi­tor “das sombras”, escolheu o Ohno certo. Foram feitos um para o ou­tro.

“Além de grande amiga fraterna, era um talento desperdiçado, digamos as­sim. Acredito que seja feita justiça a seu trabalho maravilhoso. O tem­po dirá”, acredita Massao.

Apreciador de João Cabral, Jorge de Lima e Cecília Meirelles cultiva também os espanhóis do chamado século de ouro (passagem do XVI para o XVII), dominado por nomes como Cervantes, Lope de Vega e GÓngora. É ouvinte devoto de Mo­zart, Bach e Beethoven, além de jazz, “que é o supra-sumo da criação”. Por isso sabe do que está falando quando exige rigor dos seus edita­dos, orientando-os no sentido de melhorar os textos. “Alguns deixei quase perfeitos”, orgulha-se.

“Gostaria de deixar bem claro que minha atividade é maravilhosa e faria tudo de novo”, acredi­ta. “Alguma coisa deve restar de tudo isso”.

Trechos de “Um Samurai da Sombra” texto de Geraldo Mayrink, publicado no catálogo editado por ocasião da homenagem prestada ao editor pelo Instituto Moreira Sales em 2005.

Editor da esperança

10/12/2004

Agência FAPESP

http://www.agencia.fapesp.br

– “É um poeta dos livros, um monge que dedicou sua vida a isto. Publicou a Antologia dos novíssimos, em 1960, na velha prensa da rua Vergueiro. Ele está aí nesse meio tempo como um Dom Quixote a combater a miséria de um tempo feito quase só de angústias”, diz o poeta e romancista Álvaro Alves de Faria.

O Dom Quixote, também chamado de “trabalhador do invisível”, “guru-zen”, ou simplesmente “editor”, é Massao Ohno, referência – e por muitas vezes única esperança – de toda uma geração de poetas. Aos 68 anos, está completando 45 anos da atividade quixotesca de lançar livros incomuns de autores até então pouco conhecidos.

Para comemorar a importância de seu trabalho, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou na segunda-feira (6/12) à noite, em São Paulo, uma homenagem à qual compareceram muitos admiradores e amigos. No evento, que contou com uma exposição de livros por ele lançados, Ohno recebeu uma placa.

Cláudio Willer, Renata Pallottini, Eduardo Alves da Costa, Roberto Piva, Celso Luís Paulini, Paulo del Greco, Carlos Felipe Moisés e, claro, Hilda Hilst, são alguns dos nomes cuja importância para a literatura brasileira Ohno ajudou a definir.

Nascido em São Paulo, filho de pais japoneses, Ohno formou-se dentista, diferente dos outros oito irmãos, todos engenheiros. Mas, ainda mais inusitada, foi a escolha de outro caminho. Gostava mesmo é das palavras. Impedido pelos pais, não pode estudar filosofia ou letras. Não foi preciso: tornou-se editor.

“Editava autores desconhecidos, na grande maioria poetas, e seu nome, para muitos deles, transformou-se numa tábua de salvação”, diz o jornalista Geraldo Mayrink, na introdução da brochura Homenagem a Massao Ohno, publicada pelo IMS e distribuída no evento.

A empresa de antes, assim como a gráfica da Vergueiro, não existe mais. Mas a atividade continua, teimosa e necessária. “Não interrompeu suas edições. Agora as produz ‘em câmera lenta’ e até o fim de 2004 lançará mais seis ou sete títulos, de autores cujos nomes não revela mas que ‘surpreenderão a muita gente’”, disse a Mayrink.

José Mindlin, Heloisa Buarque de Holanda e Mauro Salles são alguns dos autores dos depoimentos que marcam a brochura em homenagem ao editor. “Sem Massao Ohno a poesia novíssima não se teria editado, como não teria vindo à luz, pode-se dizer, grande parte da produção inicial dos jovens poetas de São Paulo nos últimos 30 anos”, afirma em outro texto o poeta Antonio Fernando De Franceschi,

“Massao Ohno, para quem vinha, como eu, do interior do estado de São Paulo, era, nos anos 60, uma referência quase que mítica. Mágica, com certeza, para os que, jovens poetas, buscavam publicar seus livros, os primeiros e suas seqüências”, diz Carlos Vogt, presidente da FAPESP, em outro depoimento. Foi pelas mãos de Ohno, que Vogt publicou seu primeiro livro de poesias, Cantografia – O itinerário do carteiro cartógrafo (1982), que viria a receber o prêmio de revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

“Infelizmente não há um catálogo de tudo que ele editou, algo que já se faz necessário para que as novas gerações saibam quantos novos autores foram editados por esse construtor que, se não construiu catedrais, deixou ao menos inúmeros castelos”, diz outro editor, Plinio Martins Filho.

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2 Respostas to “O Editor”

  1. Morre o Homem, aflora a obra e nasce o mito.
    Massao Ohno. Nunca me publicou porque eu achava que não daria continuidade a produção rotineira, assim dizia que quando tivesse o conteúdo formado, que o procurasse, pois dizia que eu tinha talento e não podia me perder no medo de não ser aprovado, o que foi um engano, talvez culpa do orgulhismo, desmerecendo-me a mim mesmo e deixando para trás o que poderia hoje me trazer lembranças vívidas daquela oportunidade que o Massao queria me dar…Porém, sempre acompanhei os antigos companheiros, principalmente andamos juntos algum tempo, eu e o Lindolf Bell, que vinha de Timbó, dizer poemas ao público em cima de caixotes, atreaindo a atenção dos transeuntes no Viaduto do Chá, na Praça da Sé, na Praça da Republica, na Praça Dom José Gaspar ( atrás da Biblioteca que era o nosso ponto de encontro )e onde foi exposto o meu poema ” TU, PÁSSARO ” que foi escolhido num concurso de poesia e prosa de novissimos em 1964, e durante a abertura da mostra, à tarde daquele dia, houve a primeira passeata passando em frente justamente naquele tarde onde a poesia emergente surgia exposta nas vitrines envidraçadas do saguão principal…

  2. No dia 31 de março houve a mostra das poesias selecionadas por um jurí de hoje imortais literatos, classificadas para serem expostas no saguão de entrada da Biblioteca Municipal de São Paulo, onde o Sérgio Milliet era diretor, as quais tinham a assinatura de Eunice Arruda, João Ricardo Penteado, de Carlos Frydman, Benedito Calixto, e, dentre estes, o meu poema ” TU, PÁSSARO “, considerado bom por vates como Guilherme de Almeida, Cecilia Meirelles,etc. que faziam parte do júri deste concurso de poesia de poetas novíssimos em suas primeiras incursões liricas…o qual recebeu o nome de II Grupo de Novíssimos da década de 60.A nota distoante foi quando a passeata saída da Praça da República, ao passar com as bandeiras da TFP e seguidas por uma multidão de civís de braços dados por trás de uma longa faixa com os dizeres ” Marcha com Deus pela Liberdade ” passou em frente da Biblioteca Municipal onde estavamos nós todos conversando no momento inaugural do evento literário, e tivemos de sair à porta de entrada para vermos aquela multidão passar em nossa frente, bradando vociferações contra o governo de João Goulart, o qual, diziam, era comunista e iria impór a ditadura soviética no Brasil. Depois da paseata que seguiu rumo ò Teatro Municipal, oela Rua Xavier de Toledo, ficamos comentando o fato entre nós mesmos…Logo no dia seguinte a ditadura de direita estava no poder com o golpe dos militares, onde permaneceu até 1984, quando o movimento das ” Diretas Já ” eclodiu para por fim à ditadura de duas decadas no país.
    Acabei na clandestinidade e me tornei mais um na multidão, sem me manifestar senão contra o golpe militar, anonimamente, mas no conjunto de vozes subterraneas que pregavam a reação contra o ato que tirou a possibilidade de o Brasil ter se tornado um país socialista, auto-suficiente, soberano e mais evoluído culturalmente.Perdemos o trem da história
    que agora ressurge com o advento da democracia socialista que a direita impediu naquele tempo.

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